Saindo da cidade, começa a verdadeira viagem até o início de La Gran Sabana, isto é, El Dorado.
Durante o trajecto passo por Upata, Guanapo, Guasipati e El Callao, onde paro para comer e provar um pouco de "Casabe" e descansar.

Passadas duas horas chego a acampamento sugerido por Peter, o alemão de La Casita. O acampamento fica a beira do rio Cuyuni, tendo como pano de fundo uma ponte ao estilo Eiffel. Algumas bocas falam que foi o mesmo cavalheiro que projectou a famosa torre parisiense, outras desmentem a teoria dizendo que foi um engenheiro venezuelano que a concebeu durante o período de ditadura de Gomez. A mim pouco me interessa quem a construiu, apenas acho que a ponte é espectacular e que tem os dias contados. É uma pena que este património nacional se deteriore, é necessário conservá-lo para a história.
El Dorado, povoação feia e arruinada, terra de ouro, de contrabandistas oriundos da Guayana e do Brasil, berço da prisão mais emblemática da região, localizada no outro lado do rio. Foi baptizada com este nome devido ao boom ou a febre do ouro na região. Vieram de todos os cantos inimagináveis, alguns foram ficando mas outros partiram com riquezas, outros com ilusões, deixando a povoação como está agora, pobre e envelhecida.
Num dos dois acampamentos da região, o Encanto de Cuyuni, tudo é uma surpresa. Não há telefone, nem rede de telemóvel, internet nem se fala, luz até as 23.00, a água é filtrada do rio, comida nem vê-la e o centro da povoação a partir das 20.00 é um inferno. Dizem as más-línguas (ou as boas) que por aqueles lados e naquelas horas que até se matam pessoas. Nem hesitei… é preferível ficar sem comer. Indicaram-me o meu quarto, que mais parecia uma cavalariça com uma casa de banho medonha, baratas por todo lado e mosquitos devoradores. Tudo isto pelo preço de 80 BLF = 20 USD, ou se preferirem 14,00 EUR… um absurdo.
Valeu a pena conversar com o casal responsável pelo acampamento, a Rosangela e o José. Foram extremamente simpáticos e sensíveis nos aconselhamentos. Estive com eles até o corte de energia e durante esse período ouvi as histórias mais rocambolescas daquele lugar, nomeadamente o tráfico de diesel pelo rio até a Guyana, o suborno dos militares no postos de controlo espalhados pelas margens do rio, a venda de um bidão de combustível de 250 BLF por 600.000 BLF, a troca de ouro ou diamantes... enfim!
Mesmo assim a vida continua a ser bela, desabafa José… eu concordei com ele.
Depois de tudo o que vi e ouvi, sinto que tenho ainda muita sorte pela frente.





O atendimento é muito familiar e afável e o dono, um alemão chamadode Peter é um passado… mas muito profissional. No caminho para o acampamento tive a minha primeira queda, nada de grave, porem a mala esquerda ficou um pouco danificada, aliás, o fundo saiu o que me levou a ficar mais um dia do que o previsto para consertá-la. A sorte foi ter toda a ferramenta necessária e depois de muita pancada, consegui pô-la no sítio. Tive de pedir ao Sr. Luís, o capataz da quinta, um berbequim e um “arrebitador” para fixar o fundo da caixa. È o que faz conduzir numa pista de areia com 400 kg de peso total. Mas valeu a experiência!
















Somado o tempo, os impressos, as inúmeras fotocópias, entre outros pormenores menos importantes deu um resultado de aproximadamente 50 € de gastos, de facto bastante aquém do que tinha previsto… ainda bem!
Ja me tinham avisado que após uma semana colocava metade das coisas dentro de uma caixinha e como é óbvio, enviava pelo correio para Portugal.
Depois de tudo tratado com o Paulo Azeredo da Eurolis, que desde já envio uma palavra de agradecimento pelo esforço que aplicou durante todo o processo “burocrático”do empacotamento da moto e do equipamento (406 kg), resta só comprar o bilhete de ida e partir para a odisseia tanto ansiada por mim.
